Fósseis

Baleias no deserto

Em um artigo anterior, falamos a respeito do lagersttäten, um tipo muito especial de depósito de fósseis no qual a conservação dos achados – especialmente das partes delicadas dos organismos – é excepcional. Um desses depósitos se encontra na região desértica costeira ao sul de Lima, no Peru, próximo à cidade de Ica. Trata-se da Formação Pisco, que compõe a porção superior da coluna geológica denominada Neogeno. Essa formação é reconhecida há muitos anos por sua riqueza de fósseis, especialmente de organismos marinhos (baleias, golfinhos, tubarões, focas e invertebrados) e outros animais terrestres (crocodilos, pinguins, aves, entre outros) enterrados em sedimentos ricos em diatomáceas, que são algas marinhas microscópicas.

Várias equipes de investigação europeias e norte-americanas têm estudado esses depósitos e seus fósseis. Um desses grupos é constituído de pesquisadores do Geoscience Research Institute (GRI), liderados pelo Dr. Raúl Esperante, e da Universidade de Loma Linda, nos Estados Unidos, chefiados por Leonard Brand e Kevin Nick. Ao longo das décadas, vários cientistas sugeriram que esses fósseis teriam se acumulado lentamente na região, no decorrer de milhões de anos. A suposição era de que, conforme iam morrendo, esses organismos atingiam o fundo do mar e eram soterrados pela acumulação lenta e gradual de diatomáceas e outros sedimentos no local. No entanto, nos últimos 15 anos, Esperante e Brand têm questionado a ideia de que a sedimentação gradual seria capaz de conservar tão bem esses restos, considerando-se a velocidade com que os sedimentos são depositados atualmente no assoalho marinho. Essa dúvida os motivou a desenvolver diversas pesquisas muito interessantes.

Tive a incrível oportunidade de participar de várias temporadas de pesquisas na Formação Pisco com os doutores Esperante e Nick. Este último estuda os estratos de cinzas vulcânicas que possibilitam o estabelecimento de correlações entre as diferentes unidades de sedimentos na região. Por sua vez, Raúl Esperante tem se especializado, junto com alguns de seus alunos, em fósseis de baleias. Por que é possível encontras fósseis desses animais em uma região de deserto? Evidentemente, as baleias viviam no ambiente marinho e, quando morreram, caíram no fundo oceânico. Para serem conservadas, precisaram ser encobertas por sedimentos diatomáceos. Após o soterramento e a fossilização, foram elevadas pelos movimentos tectônicos relacionados à formação da Cordilheira dos Andes. Por isso, estão presentes em uma faixa de dezenas de quilômetros ao longo da costa e a centenas de metros acima do nível do mar, em uma área desértica.

Mas, como elas permaneceram tão bem conservadas? Foram encontrados milhares de esqueletos completos e grande quantidade de outros articulados, todos com partes delicadas extraordinariamente preservadas. É possível mencionar, por exemplo, as barbas filtradoras, que se desprendem dos ossos da boca poucos dias após a morte do animal. Como tais estruturas puderam ser mantidas nesses fósseis se tais baleias permaneceram muito tempo expostas antes de serem totalmente encobertas por sedimentos? Devemos considerar que, de acordo com projeções científicas, as diatomáceas levam cerca de mil anos para se acumular em camadas de poucos centímetros. Ao realizar uma série de pesquisas para registrar imagens de animais mortos no fundo do mar com o auxílio de um submersível, o Dr. Esperante constatou que a acumulação de sedimentos nos fundos marinhos é tão lenta que, em questão de meses ou pouquíssimos anos, os restos mortais não soterrados são destruídos e praticamente desaparecem.

Possivelmente, a conservação requintada das baleias (e de suas barbas) e de partes de esqueletos cartilaginosos de tubarões – que, geralmente, não se conservam como fósseis, mas nesse ambiente têm se preservado – se deva ao soterramento abrupto e em curto espaço de tempo desses animais. A presença de milhares de esqueletos indica que a morte e o sepultamento ocorreram sob circunstâncias rápidas e catastróficas.

Os resultados desses estudos têm sido divulgados em diversas revistas científicas e contribuído para a melhor compreensão dos processos de fossilização dos restos orgânicos. Isso mostra que, em vez de não se posicionar a respeito de questões complexas acerca da história da Terra, os pesquisadores criacionistas têm visualizado nesses desafios grandes oportunidades de fazer descobertas científicas de imenso valor, as quais servem como evidências que apoiam as interpretações baseadas no registro bíblico.

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Os pesquisadores Raúl Esperante (à esquerda) e Roberto Biaggi (à direita) junto a um fóssil de baleia, na região desértica situada no sul do Peru. Na parte anterior central da imagem, é possível visualizar o excelente estado de conservação das barbas filtradoras desse fóssil.